quinta-feira, 16 de abril de 2026

Desaprendemos a comer

Comer deixou de ser uma necessidade básica do ser humano para passar a ser uma decisão de moralidade. 

Infelizmente, o que noutros tempos foi um privilégio, passa agora despercebido. 

Despercebido, dependendo do ponto de vista… porque agora comer um doce parece um erro, já não é uma escolha normal. 


Será que foram as redes sociais que nos enfiaram nesta bolha de hiperfoco em comer saudável? Uma bolha que nos faz sentir que falhamos perante este padrão invisível, como se estivéssemos constantemente a errar com algo que nunca foi claramente definido. Uma bolha em que escolhemos o que comemos pelo rótulo e não por gosto, mesmo sem sabermos se é a escolha certa. Uma bolha que nos faz controlar cada caloria que comemos, como se o prazer tivesse deixado de ser permitido.


Pensamos que sabemos tudo, quando controlamos tudo o que comemos, até percebermos que tudo faz mal, mesmo aquilo que julgávamos ser saudável. 

Não nos adianta viver de rótulos apelativos e de promessas de bem-estar, quando até os mais disciplinados podem desenvolver problemas, nem sempre físicos, mas muitas vezes mentais, tornando algo tão natural numa fonte constante de preocupação. 


Talvez o problema não esteja na comida, mas na nossa falta de simplicidade. 

Quando este tipo de pressão não existia, comer era simples, não tínhamos que pensar demasiado para preparar uma refeição. 


Será que complicámos algo tão básico? Será que isto é saudável? Ou será que, na tentativa de comer melhor, desaprendemos simplesmente a comer? 


Inês Garção 


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