quinta-feira, 16 de abril de 2026

O país que vive em 90 minutos

 

Entre conversas demoradas e cafés que arrefecem na mesa, há uma coisa que nunca abranda, o futebol, o som de uma bola a bater no chão é quase religioso. Não importa se é num estádio cheio, num campo pelado ou numa rua estreita onde os carros fazem de baliza, o futebol acontece sempre, como se fosse uma necessidade básica, como respirar ou discutir política ao jantar.

Quem diz carros, diz árvores, chinelos, paus, tudo, mas mesmo tudo servia para fazer de poste, e a barra? A barra era imaginável, quando sentíamos que o remate ia alto demais, o golo não contava.

De segunda a domingo, o país para. As famílias juntam-se em horários que não são seus, mas sim do calendário da liga. Vestir a camisola é como vestir uma identidade, há quem sofra em silêncio, e há ainda quem esteja sempre a jurar que “este ano é que é”, repetindo a mesma esperança que vai de geração em geração.

Finalmente vem o jogo. Noventa minutos que nunca são só noventa minutos. São nervos, gritos, insultos ao árbitro (que, curiosamente, está sempre mal), abraços a desconhecidos e aquela sensação estranha de que a nossa felicidade depende de onze pessoas que nem sabem que existimos. E, no entanto, dependemos mesmo.

Tenho várias histórias engraçadas de abraços a desconhecidos, mas a mais engraçada foi no ano passado, em que foi golo e naquele momento mais nada importa, fico descontrolado com o sentimento de ver a bola a bater na rede e saltei para as cavalitas de um senhor que nunca tinha visto na vida e começámos os dois aos saltos, porque é assim, quando o assunto é futebol somos todos família.

O futebol tem essa capacidade, transformar o simples em épico. Um passe é magia, um golo vira poesia, e uma derrota… bem, uma derrota é uma tragédia, que dá que falar durante dias. Porque no futebol não se perde só um jogo, perde-se as discussões no café e provocações que já tínhamos guardado para o dia a seguir.

Mas talvez o mais curioso seja que no dia seguinte, tudo recomeça. O adepto volta, a esperança renasce, e a bola volta a rolar como se nada tivesse acontecido. Porque no fundo, o futebol não é sobre ganhar ou perder. É sobre acreditar. Sempre mais uma vez.

Às vezes perguntam-me porque é que ainda vou lá, “Não ganham um jogo, estão fora de tudo!”, eu não vou lá porque ganhamos todos os jogos, eu não vou lá porque ganhamos tudo todos os anos, eu vou porque nasceu comigo, não consigo explicar e fica mais bonito assim.

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