quarta-feira, 15 de abril de 2026

Isto foi uma coisa que me aconteceu durante esta semana

 15/04/2026

Há dias em que acordo e sinto que fui substituído durante a noite por uma versão melhor de mim. Não sei quem fez a troca, mas agradeço. Nesses dias, tudo parece funcionar com uma precisão quase suspeita.

Levanto-me antes do despertador, sem aquele impulso imediato de renegociar a minha existência com a cama por «só mais cinco minutos». O café sai mesmo a gosto, a torrada não fica carbonizada e até a internet decide colaborar. São pequenos sinais de que algo de extraordinário está a acontecer.

Mas o mais impressionante não são estas vitórias domésticas; é a forma como lido com as pessoas. Consigo escutar, responder com clareza e até achar graça a situações que, noutros dias, seriam motivo para um pequeno colapso aqui dentro. Uma mensagem ambígua deixa de ser interpretada como um ataque pessoal e passa simplesmente a ser… uma mensagem. É quase como se tivesse instalado uma atualização durante a noite.

Nesses momentos, penso sempre: “Era tão bom se eu fosse sempre assim.” Esta versão de mim é leve, rápida no raciocínio e socialmente competente. Uma espécie de plano premium, com funcionalidades extra e sem os habituais bugs.

O problema é que esta versão não é a regra. Na maioria dos dias, acordo numa espécie de lotaria existencial. Abro os olhos e fico à espera de perceber quem me saiu na rifa. Às vezes, calha-me na tômbola um “eu” mais denso, que encara o mundo com a mesma disposição com que se encara uma segunda-feira chuvosa… tudo requer um esforço adicional.

Nesses dias, até as interações mais simples podem tornar-se desafiantes. Um comentário inocente é analisado como se fosse uma tese de doutoramento em segundas intenções e qualquer conselho bem-intencionado – “tenta ver o lado positivo” – tem o curioso efeito de aumentar a irritação em vez de a diminuir.

Ainda assim, tento negociar comigo próprio. Prometo ser mais paciente, respirar fundo e relativizar; faço verdadeiros discursos motivacionais internos que, curiosamente, perdem toda a eficácia ao primeiro contacto com a realidade. Basta um pequeno contratempo para perceber que o tal “plano premium” já prescreveu há dias.

Ao final da noite, contudo, costuma instalar-se uma espécie de «armistício». Já em casa e no silêncio, sinto que o sistema reinicia lentamente. É como se alguma entidade reguladora qualquer e invisível me atribuísse um novo crédito, e ganho ali umas três a quatro horas de um novo “eu”. Talvez para apaziguar a versão que me foi dada desde que me levantei.

Curiosamente, toda esta reflexão nasce de um dia particularmente bom que tive esta semana. Durante algumas boas e largas horas, senti-me plenamente capaz, como se estivesse a utilizar o melhor de mim. E isso levou-me a uma conclusão simples: talvez não possamos controlar que versão de nós próprios aparece a cada manhã, mas podemos, pelo menos, reconhecer e apreciar quando ela decide fazer uma visita.

E vocês, também têm a sensação de que vivem com diferentes versões de si próprios, ou sou só eu que acordo todos os dias sem manual de instruções?

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