quarta-feira, 22 de abril de 2026

O silêncio que se senta à mesa

A luz foi abaixo, a água parou de correr, a internet deixou de funcionar. Fez-se silêncio. Podia ter sido um corte geral, mas não foi. E é aí que a casa para. 

A água e a luz são o básico. Mas quando se fica sem, sente-se um vazio. É como se nos tirassem a roupa e ficássemos despidos. De repente, a casa parece outra. Sem o zumbido do frigorífico e sem as vozes da televisão, percebi que não sabia muito bem o que fazer comigo. É estranho como nos habituamos a ter sempre tudo pronto a usar, a não ter de pensar em como as coisas funcionam. O tempo começou a passar de outra maneira. Mais devagar. O silêncio deixa de ser ausência de ruído e passa a ser o palco onde os meus pensamentos, antes distraídos, agora se sentam à mesa comigo. Durante o dia aprende-se a apreciar a beleza das pequenas coisas. A luz do sol, o movimento da rua, os passarinhos, o movimento das nuvens. Sem ecrãs, sem luz, sem nada em casa que me prenda, tudo ganha outra dimensão. Quando nos debruçamos sobre a janela, parados ali a olhar para a rua os pensamentos multiplicam-se. A mente cria um nó difícil de desfazer. O corpo está ali, presente na casa em pausa, mas a mente voa sem darmos por isso. Aproveitar enquanto há luz lá fora para carregar telemóveis, ir buscar água às fontes tornou-se uma realidade do dia-a-dia. Tudo isto cria confusão. Cria frustração. Cria ansiedade. Cria acima de tudo incerteza. Depois do pôr do sol, tudo isso ganha mais peso. O céu passa de azul para preto. A claridade que irradiava as paredes deixa apenas a sombra das velas. Do lado de fora os prédios acendem. Do lado de dentro come-se sem se ver bem o que o garfo espeta. Toma-se banho sem luz no teto. Anda-se com a lanterna na mão. Deita-se com a esperança de um dia melhor. 


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