Vivemos num país onde o “bom português” ainda acredita que discutir política no café é um desporto olímpico e que o “deixa andar” é uma filosofia de vida – peremptoriamente nacional. Portugal é aquela casa que está sempre “quase arrumada”, onde o caos é uma forma de decoração e a anarquia é só mais uma palavra cara que aprendemos a dizer entre um copo de tinto e uma bica curta.
Tudo aqui é feito a meias: meio indignados, meio
conformados, meio revoltados – o que, somando tudo, dá um inteiro de nada.
Somos o povo que protesta no sofá, consuma a sua revolta nas redes
sociais e depois vota “no menos mau”, como quem escolhe o prato do dia depois
de descobrir que já não há francesinha.
Há quem diga que Portugal é um país triste. Eu acho que é
só um país com sono. Um sono antigo, daqueles pesados, de quem dorme desde o
Estado Novo e só acorda de quatro em quatro anos, quando há eleições ou quando
o Benfica perde. E mesmo aí, o despertar é breve – uma piscadela de olho, um
bocejo de indignação e lá voltamos ao torpor confortável do “não há nada a
fazer”.
A nossa anarquia é mansa, feita de filas nas
Finanças e revoluções nos comentários do Facebook. Queremos mudar o mundo, mas
primeiro temos de ver se há vaga para estacionar. Falamos da Europa como se
fosse um condomínio onde nunca fomos à assembleia, mas pagamos as quotas todas,
com ar de mártir.
No fundo, Portugal é aquele amigo que tem imenso
potencial, mas prefere ficar no café a filosofar sobre o preço do café. Um país
que se leva tão pouco a sério que até a tragédia vira piada – e a piada,
inevitavelmente, acaba por se tornar tragédia outra vez.
Mas, enfim, preto é uma cor. E nós, os portugueses, ainda
achamos que o cinzento é o suficiente.
Vivemos entre promessas de modernidade e vícios de aldeia.
O capital continua a girar nas mesmas mãos – aquelas que seguram a
pátria como se fosse um cofre pessoal. Esperamos sempre uma subvenção
milagrosa que resolva a inércia nacional, como se o Estado fosse uma
fada-madrinha de fato e gravata. O povo, com o seu plebeísmo ingénuo, vai rindo
da desgraça enquanto os de cima escrevem discursos pernósticos sobre
“resiliência”.
E, claro, lá vem o espantalho da vez: a “invasão” dos
imigrantes. O novo brinquedo retórico da extrema-direita, que descobriu que é
mais fácil culpar quem chega do que encarar o que nunca se fez. Falam de
“identidade nacional” como quem fala de um objeto perdido, e berram nas
televisões que “o país está a mudar”. Pois está – e ainda bem. Porque se
dependesse de alguns, ainda andaríamos de carroça, mas com bandeira na janela.
A cultura, coitada, é o parente pobre de um país que se
gaba de Camões, mas não lê um livro desde o secundário. Vive à conta de apoios
que nunca chegam, de artistas que sobrevivem com mais fé do que fundos, e de
políticos que confundem arte com entretenimento. Mas tudo bem, desde que haja
festivais e selfies.
Portugal é isto: um palco pequeno com ambições de
Hollywood, onde todos querem ser protagonistas, mas ninguém quer decorar o
texto. E talvez seja por isso que o riso é o nosso último ato de coragem – rir
do que somos, rir para não chorar, rir porque é a única forma de manter viva a
esperança de que um dia, quem sabe, o preto volte a ser apenas uma cor.
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