quinta-feira, 23 de abril de 2026

“Preto é uma cor” – E Portugal está negro de Fúria

 Vivemos num país onde o “bom português” ainda acredita que discutir política no café é um desporto olímpico e que o “deixa andar” é uma filosofia de vida – peremptoriamente nacional. Portugal é aquela casa que está sempre “quase arrumada”, onde o caos é uma forma de decoração e a anarquia é só mais uma palavra cara que aprendemos a dizer entre um copo de tinto e uma bica curta.

Tudo aqui é feito a meias: meio indignados, meio conformados, meio revoltados – o que, somando tudo, dá um inteiro de nada. Somos o povo que protesta no sofá, consuma a sua revolta nas redes sociais e depois vota “no menos mau”, como quem escolhe o prato do dia depois de descobrir que já não há francesinha.

Há quem diga que Portugal é um país triste. Eu acho que é só um país com sono. Um sono antigo, daqueles pesados, de quem dorme desde o Estado Novo e só acorda de quatro em quatro anos, quando há eleições ou quando o Benfica perde. E mesmo aí, o despertar é breve – uma piscadela de olho, um bocejo de indignação e lá voltamos ao torpor confortável do “não há nada a fazer”.

A nossa anarquia é mansa, feita de filas nas Finanças e revoluções nos comentários do Facebook. Queremos mudar o mundo, mas primeiro temos de ver se há vaga para estacionar. Falamos da Europa como se fosse um condomínio onde nunca fomos à assembleia, mas pagamos as quotas todas, com ar de mártir.

No fundo, Portugal é aquele amigo que tem imenso potencial, mas prefere ficar no café a filosofar sobre o preço do café. Um país que se leva tão pouco a sério que até a tragédia vira piada – e a piada, inevitavelmente, acaba por se tornar tragédia outra vez.

Mas, enfim, preto é uma cor. E nós, os portugueses, ainda achamos que o cinzento é o suficiente.

Vivemos entre promessas de modernidade e vícios de aldeia. O capital continua a girar nas mesmas mãos – aquelas que seguram a pátria como se fosse um cofre pessoal. Esperamos sempre uma subvenção milagrosa que resolva a inércia nacional, como se o Estado fosse uma fada-madrinha de fato e gravata. O povo, com o seu plebeísmo ingénuo, vai rindo da desgraça enquanto os de cima escrevem discursos pernósticos sobre “resiliência”.

E, claro, lá vem o espantalho da vez: a “invasão” dos imigrantes. O novo brinquedo retórico da extrema-direita, que descobriu que é mais fácil culpar quem chega do que encarar o que nunca se fez. Falam de “identidade nacional” como quem fala de um objeto perdido, e berram nas televisões que “o país está a mudar”. Pois está – e ainda bem. Porque se dependesse de alguns, ainda andaríamos de carroça, mas com bandeira na janela.

A cultura, coitada, é o parente pobre de um país que se gaba de Camões, mas não lê um livro desde o secundário. Vive à conta de apoios que nunca chegam, de artistas que sobrevivem com mais fé do que fundos, e de políticos que confundem arte com entretenimento. Mas tudo bem, desde que haja festivais e selfies.

Portugal é isto: um palco pequeno com ambições de Hollywood, onde todos querem ser protagonistas, mas ninguém quer decorar o texto. E talvez seja por isso que o riso é o nosso último ato de coragem – rir do que somos, rir para não chorar, rir porque é a única forma de manter viva a esperança de que um dia, quem sabe, o preto volte a ser apenas uma cor.

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