Há pessoas que nos marcam, especialmente quando estamos longe de casa. As pessoas deslocadas vão perceber isto que falo. Há um silêncio estranho que se instala quando tudo é novo: as ruas, os cheiros, as rotinas, até o próprio reflexo no espelho parece um pouco deslocado. E é nesse vazio que certas pessoas entram, devagarinho, sem pedir licença, e acabam por se tornar abrigo.
A minha madrinha de
faculdade foi isso mesmo, um abrigo. Em Portalegre, onde tudo me parecia
distante e frio ao início, foi ela que trouxe calor. Não com grandes gestos,
mas com pequenas coisas que pesam mais do que qualquer discurso: um “já
comeste?”, um abraço, uma mensagem nos dias mais difíceis. Fez daquela cidade,
que não era minha, um sítio onde eu podia descansar o coração.
Há pessoas que não têm
obrigação de ficar, mas escolhem ficar. E isso muda tudo. Porque quando alguém
nos vê, na nossa fragilidade e decide permanecer, cria-se um laço que não se
explica, sente-se. Foi assim que Portalegre deixou de ser só um ponto no mapa e
passou a ser casa.
Hoje percebo que não
são os lugares que nos prendem, são as pessoas. São elas que dão significado às
ruas, às memórias, aos dias comuns. E a minha madrinha, sem saber, construiu em
mim um lugar seguro que levo para onde quer que vá.
Porque no fim, são
essas pessoas que nos salvam do vazio de estar longe, e nos ensinam que, mesmo
fora de casa, nunca estamos verdadeiramente sozinhos.
Beatriz Maia
Sem comentários:
Enviar um comentário