quinta-feira, 30 de abril de 2026

O Mistério da Voz sem Cheiro

A minha saudade tem um cheiro específico. Aquele cheiro que aquece a alma: pelo, casa. Tem um tamanho pequenino, olhos doces e frágeis. Sorri como se fosse gente grande. Fica feliz com pequenas coisas. Ela fala comigo sem dizer uma única palavra. Sente a minha presença à distância. Olha para mim enquanto me implora com o olhar para que eu não vá embora mesmo sem falar. Sente a minha falta. Como eu sinto a dela. 


A saudade custa sempre. Seja de quem for. Mas a saudade do nosso animal de estimação custa a dobrar. Ou até a triplicar. Com as pessoas, ligamos, ouvimos, partilhamos o dia. Mas e com ela? Eu vejo-a, mas ela só vê luz e vidro. Eu chamo-a, mas ela não entende como é que a minha voz sai de uma caixa preta se o meu cheiro não está na sala. Ela abana a cauda e procura por mim, no telemóvel, na casa, na porta. Mas eu não vou entrar. 


Para nós, uma videochamada é um consolo, mas para ela é um mistério. Desligo o ecrã e o silêncio torna-se mais pesado. Ela só conhece o agora e o nós. Talvez por isso a saudade dela doa tanto. É uma saudade sem filtros, sem justificações lógicas. É a falta de uma parte de mim que ficou guardada naquela criatura pequenina. 


Olho para as fotografias dela. Ou está a dormir. Ou enrolada nas mantas só com a cara de fora. Ou no meu colo. Olho para os vídeos. Está a brincar com o peluche. Ou está a brincar connosco. Ou está a dar-me beijinhos. E tenho de desligar o ecrã. Porque as lágrimas não param de correr. As lágrimas são a prova de um privilégio imenso: o de ter um ser tão puro que não precisa de entender o que é a universidade ou o futuro para me amar com a mesma intensidade de sempre. 


Para ela, eu sou apenas o seu mundo que, por algum motivo misterioso, ficou preso dentro de uma caixa de vidro. A saudade dói porque o nosso laço é físico, é feito de cheiro, de toque e de presença, e não há Wi-Fi no mundo que consiga transmitir o calor de um abraço. O meu porto seguro tem quatro patas, um olhar doce e a capacidade eterna de me fazer voltar sempre para casa. 


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