quarta-feira, 6 de maio de 2026

Um dia na praia

 Acordei com a sensação de que o dia já me esperava lá fora. O sol entrava pela janela com uma insistência quase pessoal, como quem não aceita desculpas. Não havia planos definidos, apenas uma vontade leve de sair e ir ter com o mar. Peguei numa toalha, um livro que sabia que não ia ler, e fui. Há dias assim — em que o destino não importa tanto quanto o caminho até ele.


A praia estava mais viva do que eu esperava. Crianças corriam sem direção, como se o mundo fosse apenas aquele pedaço de areia. Havia risos espalhados no ar e o som constante das ondas a marcar o ritmo de tudo. Escolhi um lugar qualquer, nem muito perto nem muito longe da água, e deixei-me ficar. Às vezes, estar presente é a única coisa que precisamos fazer.


O vento trazia conversas alheias, fragmentos de histórias que nunca conheceria por inteiro. Um casal discutia em sussurros, alguém ria alto ao telefone, um grupo partilhava memórias que pareciam antigas demais para aquele dia. Tudo coexistia sem se tocar realmente. E eu ali, espectador involuntário de vidas que nunca seriam minhas.


Entrei no mar devagar, como quem pede licença. A água estava fria o suficiente para acordar cada pensamento esquecido. Por um instante, tudo ficou simples: respirar, flutuar, existir. O mundo lá fora perdeu importância, dissolvido no sal e no movimento constante das ondas. Há uma espécie de verdade silenciosa no mar que não se encontra em mais lado nenhum.


De volta à toalha, o tempo começou a escorrer sem pressa. O sol mudou de posição, as sombras alongaram-se, e as pessoas foram desaparecendo aos poucos. A praia, antes cheia, começou a ganhar espaços vazios, como se estivesse a devolver o dia ao seu estado natural. Fiquei mais um pouco, sem razão específica, apenas porque podia.


Quando finalmente me levantei para ir embora, levei comigo mais do que trouxe. Não em coisas, mas em sensações difíceis de explicar. Um cansaço bom, uma calma rara, e a impressão de que, por algumas horas, tudo esteve exatamente onde devia estar. E talvez esteja aí o segredo de um dia na praia: não mudar nada, mas fazer-nos sentir que tudo mudou.



Tamir Varela

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