Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia esperar ansiosamente que o telefone fixo de casa tocasse, torcendo para que não fosse o pai da outra pessoa a atender. Envolvia cartas escritas à mão que demoravam dias a chegar e cassetes gravadas com as músicas que melhor traduziam o que sentíamos. O namoro alimentava-se da distância e da expectativa.
Hoje, namora-se através de um ecrã de alta definição. O namoro moderno tem uma linguagem própria, feita de gostos (likes) estratégicos em fotografias antigas, reações com corações nos stories e a partilha diária de vídeos curtos que servem para dizer: "Vi isto e lembrei-me de ti".
No entanto, esta hiper conectividade trouxe um novo tipo de ansiedade. O amor dos nossos dias mede-se, muitas vezes, na tortura silenciosa do "Online" ou naquelas duas setas azuis que confirmam que a mensagem foi lida, mas não respondida. Passámos a fazer arqueologia digital, a tentar decifrar o tom de um ponto final num SMS ou a demora de trinta minutos numa resposta. "Estará a fazer fita? Estará com outra pessoa? Ou foi só o telemóvel que ficou sem bateria?".
A verdade é que a tecnologia mudou o embrulho, mas o conteúdo do namoro recusa-se a mudar. O frio na barriga antes de um encontro continua a ser o mesmo, quer o convite tenha sido feito por carta ou por mensagem direta no Instagram. O ciúme, a cumplicidade, a partilha de piadas privadas que mais ninguém entende e o conforto de saber que há alguém que nos escolhe todos os dias permanecem intactos.
Talvez o grande desafio do namoro atual seja aprender a desligar o Wi-Fi para ligar a atenção. Porque, no fim de contas, nenhuma inteligência artificial ou algoritmo de conversação consegue substituir o luxo analógico que é olhar nos olhos de alguém, em silêncio, e perceber que encontrámos o nosso lugar no mundo.
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