quarta-feira, 12 de abril de 2023

Noite de abril

 

Sábado, 2 de abril de 2022, a primavera tinha começado e fazia-se anunciar a cada esquina. O dia foi passado em viajem dentro de um camião, entre planícies floridas e montes verdejantes, interferências de rádio, um almoço numa pequena vila tipicamente alentejana e mais horas de caminho, por entre longas estradas monótonas, que conduziam de novo a casa. A noite chegou branda e silenciosa e eu sem nada esperar dela. Os meus passos conduziram-me até àquele café, que ao abrir a porta de entrada, deparei-me com uma pequena multidão no seu interior. Tudo indicava que seria mais uma festa entediante na aldeia, mas depois ela surgiu no meio daquele ambiente festivo e os meus olhos nunca mais a perderam de vista. Chegou junto a mim com o seu semblante pequeno e a sua voz alegre e tímida, que proferia frases que remetiam para um passado em comum. Ali ficámos, de pé junto ao balcão de vender rifas, a conversar até ser de madrugada, sobre a infância, as banalidades da vida, os gostos musicais e os planos para o futuro. Ali ficámos, trocando olhares que se desviavam rapidamente, bebendo álcool que conduzia os motes das conversas e fazia perdurar uma felicidade. Aquela noite conduziu-me por um atalho, que me levou a um outro tempo. Desejei que ela nunca acabasse, desejei poder viver dentro dela para todo o sempre, mas esta não me concedeu tal benesse.

Após uma noite sem pregar olho e o álcool ter desparecido do sangue, tudo o que restou foi um ardor no meu peito e a beleza de uma imagem plantada na minha mente, que perduraram por longos meses. Perdurou uma busca incessante por ela, em possíveis encontros cancelados à última hora, em festas em que ela não estava presente, pelas ruas pequenas e desertas da aldeia. O tempo foi passando, a primavera mostrou tamanha candura para comigo, sendo que não dei por esta findar. O verão mostrou tamanha rigidez para comigo, sendo que os seus longos dias demoravam a passar. Cansei-me de caminhar pela aldeia, as solas dos meus sapatos já estavam gastas de tanto andar. Perdi a esperança de encontrar alguém que me devolvesse a juventude, que neste sítio sempre pensei que fosse encontrar. Apenas encontrava velhos a andar de forma vagarosa, esperando pacientemente pela morte. Fugi deste lugar, antes que as suas raízes me aprisionassem e fosse tarde demais. Acabei por seguir em frente, aqui não havia nada para mim, por mais bela e pacata que fosse a paisagem, por mais sonhos que tivesse com ela à noite e estes fossem sempre belos, deixando-me a sonhar acordado durante o dia.  

Domingo, 2 de abril de 2023, a primavera tinha começado e fazia-se anunciar a cada esquina. Era o início das férias da Páscoa, a tarde chegou calmamente e eu sem nada esperar dela. Os meus passos foram dar àquele café, que se encontrava completamente cheio, para muito espanto e felicidade minha. No meio de várias caras conhecidas, que voltei a reencontrar com carinho, encontrei a dela novamente, mas esta não me olhou. Mais tarde, cheguei junto ao balcão de vender rifas, com o meu semblante carregado e voz grossa, dirigi-lhe a palavra, mas esta não me respondeu. Assim se foi passando a tarde, com ambos a evitarmo-nos e estando sempre em partes distintas do café. Assim se foi passando a tarde, em trabalho, conversas e bebida. Não era mais uma festa entediante na aldeia. A juventude veio ao meu alcance, através de jogos de matraquilhos, numa mesa ao ar livre. Voltei a dirigir-lhe a palavra, desta vez respondeu-me. Impressionante, como conseguimos comunicar, somente através do álcool. A conversa foi curta, meramente banal, se durou cinco minutos foi muito. Não senti o temor de outros tempos, dentro de mim, nem a necessidade absurda de protegê-la do mundo que há lá fora. As expressões finas do seu rosto, os seus olhos cor-de-mel e o seu cabelo castanho-claro, já não me encantavam, nem fascinavam. Agora, era tudo apenas um amontoado de indiferença. As bolas dos matraquilhos saltavam para bem longe, tamanha era a força e a excitação que eram exercidas durante os jogos. A cabeça andava à roda, tamanha era a quantidade de álcool presente no sangue. Ela despareceu mais uma vez sem deixar rasto, e eu sem ter dado por isso. A noite chegou branda e silenciosa, sem eu ter dado pela sua presença. Uma náusea e mal-estar ameaçaram o meu âmago. Na sanita, vomitei o passado que me acorrentava e fazia refém.

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