Sábado, 2 de abril de 2022, a primavera tinha começado e
fazia-se anunciar a cada esquina. O dia foi passado em viajem dentro de um
camião, entre planícies floridas e montes verdejantes, interferências de rádio,
um almoço numa pequena vila tipicamente alentejana e mais horas de caminho, por
entre longas estradas monótonas, que conduziam de novo a casa. A noite chegou
branda e silenciosa e eu sem nada esperar dela. Os meus passos conduziram-me
até àquele café, que ao abrir a porta de entrada, deparei-me com uma pequena
multidão no seu interior. Tudo indicava que seria mais uma festa entediante na
aldeia, mas depois ela surgiu no meio daquele ambiente festivo e os meus olhos
nunca mais a perderam de vista. Chegou junto a mim com o seu semblante pequeno
e a sua voz alegre e tímida, que proferia frases que remetiam para um passado
em comum. Ali ficámos, de pé junto ao balcão de vender rifas, a conversar até
ser de madrugada, sobre a infância, as banalidades da vida, os gostos musicais
e os planos para o futuro. Ali ficámos, trocando olhares que se desviavam
rapidamente, bebendo álcool que conduzia os motes das conversas e fazia
perdurar uma felicidade. Aquela noite conduziu-me por um atalho, que me levou a
um outro tempo. Desejei que ela nunca acabasse, desejei poder viver dentro dela
para todo o sempre, mas esta não me concedeu tal benesse.
Após uma noite sem pregar olho e o álcool ter desparecido do
sangue, tudo o que restou foi um ardor no meu peito e a beleza de uma imagem plantada
na minha mente, que perduraram por longos meses. Perdurou uma busca incessante
por ela, em possíveis encontros cancelados à última hora, em festas em que ela
não estava presente, pelas ruas pequenas e desertas da aldeia. O tempo foi
passando, a primavera mostrou tamanha candura para comigo, sendo que não dei
por esta findar. O verão mostrou tamanha rigidez para comigo, sendo que os seus
longos dias demoravam a passar. Cansei-me de caminhar pela aldeia, as solas dos
meus sapatos já estavam gastas de tanto andar. Perdi a esperança de encontrar
alguém que me devolvesse a juventude, que neste sítio sempre pensei que fosse
encontrar. Apenas encontrava velhos a andar de forma vagarosa, esperando
pacientemente pela morte. Fugi deste lugar, antes que as suas raízes me
aprisionassem e fosse tarde demais. Acabei por seguir em frente, aqui não havia
nada para mim, por mais bela e pacata que fosse a paisagem, por mais sonhos que
tivesse com ela à noite e estes fossem sempre belos, deixando-me a sonhar
acordado durante o dia.
Domingo, 2 de abril de 2023, a primavera tinha começado e
fazia-se anunciar a cada esquina. Era o início das férias da Páscoa, a tarde chegou
calmamente e eu sem nada esperar dela. Os meus passos foram dar àquele café, que
se encontrava completamente cheio, para muito espanto e felicidade minha. No
meio de várias caras conhecidas, que voltei a reencontrar com carinho,
encontrei a dela novamente, mas esta não me olhou. Mais tarde, cheguei junto ao
balcão de vender rifas, com o meu semblante carregado e voz grossa, dirigi-lhe
a palavra, mas esta não me respondeu. Assim se foi passando a tarde, com ambos
a evitarmo-nos e estando sempre em partes distintas do café. Assim se foi
passando a tarde, em trabalho, conversas e bebida. Não era mais uma festa
entediante na aldeia. A juventude veio ao meu alcance, através de jogos de
matraquilhos, numa mesa ao ar livre. Voltei a dirigir-lhe a palavra, desta vez
respondeu-me. Impressionante, como conseguimos comunicar, somente através do
álcool. A conversa foi curta, meramente banal, se durou cinco minutos foi muito.
Não senti o temor de outros tempos, dentro de mim, nem a necessidade absurda de
protegê-la do mundo que há lá fora. As expressões finas do seu rosto, os seus
olhos cor-de-mel e o seu cabelo castanho-claro, já não me encantavam, nem
fascinavam. Agora, era tudo apenas um amontoado de indiferença. As bolas dos
matraquilhos saltavam para bem longe, tamanha era a força e a excitação que
eram exercidas durante os jogos. A cabeça andava à roda, tamanha era a
quantidade de álcool presente no sangue. Ela despareceu mais uma vez sem deixar
rasto, e eu sem ter dado por isso. A noite chegou branda e silenciosa, sem eu ter
dado pela sua presença. Uma náusea e mal-estar ameaçaram o meu âmago. Na
sanita, vomitei o passado que me acorrentava e fazia refém.
Amei a última frase, bestie.
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