quinta-feira, 7 de maio de 2026

A dependência do telemóvel nos jovens

 Há um momento curioso  no dia em que percebemos que o telemóvel manda mais em nós do que nós nele. Normalmente acontece sem drama, sem música de fundo, sem grandes revelações filosóficas. Acontece quando mexemos no telemóvel "só para ver as horas" e, vinte minutos depois, estamos a dar scroll no TikTok, ou até mesmo em reles no Instagram.

 E o pior é que não sabemos como fomos lá parar.

 O telemóvel tornou-se uma espécie de extensão do corpo humano. Há pessoas que conseguem sair de casa sem carteira, sem chaves e talvez sem dignidade depois de uma má escolha de roupa, mas nunca sem o telemóvel. Aliás, a relação que o ser humano tem com a bateria é quase emocional. Os 100% dão-nos segurança, os 50 % deixam-nos tranquilo, mas quando aparece o vermelho dos 10% instala-se o pânico. De repente, a pessoa transforma-se num explorador no deserto à procura desesperada de uma tomada. E há sempre aquele amigo que anda com powerbang como se estivesse preparado para sobreviver ao fim do mundo.

 O mais engraçado é que usamos o telemóvel para tudo. Serve para falar, claro, embora isso seja cada vez menos frequente. Hoje em dia mandamos áudios de dois minutos para evitar uma chamada de trinta segundos. Também serve para ver séries, ouvir música, estudar, ignorar pessoas em público e, principalmente, fingir que estamos ocupados em situações desconfortáveis. Porque é que ninguém sabe simplesmente  estar numa fila de espera sem estar a olhar para um ecrã.

 Nos cafés, nas paragens de autocarro, nas salas de espera... está tudo em silêncio mas não é um silêncio calmo. É um silêncio iluminado pelo ecrã dos telemóveis. Antigamente, as pessoas olhavam pela janela, observavam quem passava , inventavam histórias na cabeça, Agora deslizam o dedo para cima infinitamente, como se a felicidade pudesse aparecer no próximo vídeo.

 E talvez o mais assustador seja perceber que já nem nos aborrecemos. Qualquer segundo vazio é imediatamente preenchido. Esperar tornou-se insuportável. Cinco minutos sem mexer no telemóvel parece uma experiência espiritual extrema.

 Claro que o telemóvel não é o vilão absoluto. Aproxima pessoas, ajuda-nos a todos os dias e salva-nos muitas vezes de tédio absoluto. O problema começa quando desbloqueamos o ecrã sem sequer pensarmos o porquê. Quando vamos dormir a olhar para vídeos e acordamos a fazer exatamente a mesma coisa. 

 No fundo, o telemóvel trouxe-nos muita coisa boa e já faz parte da nossa vida de uma forma quase inevitável. O problema não está em usá-lo, mas em deixarmos que ocupe todos os momentos, até aqueles mais simples. Talvez ainda não estejamos preparados para passar um dia inteiro longe do ecrã -- e sinceramente, poucos conseguiram, mas às vezes fazia-nos bem levantar os olhos , reparar no que está à nossa volta e aprender novamente a estarmos presentes sem precisar de uma notificação a chamar por nós.

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