No dicionário de um estudante deslocado, a palavra "gastronomia" foi substituída pelo "desenrasque". A nossa é a dieta do quase: quase saudável, quase saborosa e, no final do mês, quase inexistente. Cozinhar num quarto alugado é um exercício de equilíbrio entre o que a bolsa permite e o que a paciência dita após um dia cheio de aulas.
O protagonista desta aventura é, invariavelmente, o atum. O amigo enlatado que é o suporte emocional de qualquer licenciatura, capaz de casar com a massa esparguete em segundas-feiras de preguiça ou com o arroz em terças-feiras de desespero. É uma dieta monocromática, onde o vermelho do molho de tomate de pacote tenta, em vão, disfarçar que estamos a comer a mesma coisa pela quarta vez consecutiva.Há também o ritual dos "tupperwares" que chegam no domingo. Aquela bolonhesa congelada ou o rissol da avó são relíquias sagradas, geridas com precisão para que o luxo dure, pelo menos, até quarta-feira. Depois disso, entramos na fase do "quase": quase que dá para fazer uma omelete com aquele ovo solitário, quase que aquele pão endurecido se torna numa torrada gourmet.
Sobrevive-se ao café de máquina, que sabe a plástico e a noitadas de estudo, e a pizzas de supermercado que prometem prazer. No fundo, a dieta do quase não alimenta o corpo, alimenta a história. Um dia, seremos adultos com frigoríficos cheios, mas sentiremos falta da adrenalina de fazer um banquete com pouco mais do que fome e imaginação.
Beatriz Maia nº26858
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