sexta-feira, 8 de maio de 2026

A dieta do quase

 No dicionário de um estudante deslocado, a palavra "gastronomia" foi substituída pelo "desenrasque". A nossa é a dieta do quase: quase saudável, quase saborosa e, no final do mês, quase inexistente. Cozinhar num quarto alugado é um exercício de equilíbrio entre o que a bolsa permite e o que a paciência dita após um dia cheio de aulas.

O protagonista desta aventura é, invariavelmente, o atum. O amigo enlatado que é o suporte emocional de qualquer licenciatura, capaz de casar com a massa esparguete em segundas-feiras de preguiça ou com o arroz em terças-feiras de desespero. É uma dieta monocromática, onde o vermelho do molho de tomate de pacote tenta, em vão, disfarçar que estamos a comer a mesma coisa pela quarta vez consecutiva.

Há também o ritual dos "tupperwares" que chegam no domingo. Aquela bolonhesa congelada ou o rissol da avó são relíquias sagradas, geridas com precisão para que o luxo dure, pelo menos, até quarta-feira. Depois disso, entramos na fase do "quase": quase que dá para fazer uma omelete com aquele ovo solitário, quase que aquele pão endurecido se torna numa torrada gourmet.

Sobrevive-se ao café de máquina, que sabe a plástico e a noitadas de estudo, e a pizzas de supermercado que prometem prazer. No fundo, a dieta do quase não alimenta o corpo, alimenta a história. Um dia, seremos adultos com frigoríficos cheios, mas sentiremos falta da adrenalina de fazer um banquete com pouco mais do que fome e imaginação.

Beatriz Maia nº26858 

Sem comentários:

Enviar um comentário

O Amor na Era do "Visto por Último"

       Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo  que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia e...