quarta-feira, 6 de maio de 2026

A Epopeia do Link na Bio


     Houve um tempo, algures entre a invenção da roda e o surgimento do primeiro pau de selfie, em que a humanidade se regia por leis físicas e sociais compreensíveis. Se alguém falava sozinho na rua, era sinal de uma mente em apuros, se alguém passava o jantar a fotografar a sopa em vez de a comer, era sinal de uma má educação galopante. Hoje, porém, vivemos na Era do Influenciador Digital, uma espécie zoológica fascinante que parece ter trocado a espinha dorsal por um algoritmo e a alma por um código de desconto de 10% em gomas vitamínicas que prometem o impossível.

    Observar um influenciador no seu habitat natural seja o passeio da Avenida da Liberdade ou um café com decoração industrial e teto em cimento bruto é assistir a um bailado do absurdo. É o triunfo da estética sobre a existência. A crueza da realidade foi substituída pela tirania do "Bege Estético". Tudo é suave, tudo é iluminado, e nada, absolutamente nada, é real. É a "espontaneidade planeada", o maior paradoxo do nosso século. O influenciador moderno acorda  ou finge que acorda com uma luz perfeita de 45 graus sobre o rosto, os lençóis de linho sem uma única ruga e uma taça de açaí com as frutas dispostas com a precisão de um cirurgião cardíaco. Ninguém come naquele cenário. Se comermos açaí na cama, a realidade dita que acabaremos com uma mancha roxa no lençol e uma crise existencial. Mas no mundo do engagement, o açaí não mancha, ele apenas decora.

    A crónica desta patine social começa na linguagem. Já repararam como eles falam? Há uma cadência específica, uma espécie de dialeto onde o "Olá, meus amores" é o novo "Bom dia". Segue-se o inevitável "Tenho recebido muitas mensagens vossas a perguntar sobre a minha rotina de pele". Alerta de spoiler: ninguém perguntou. Mas a ficção de que existe uma multidão ansiosa por saber qual é o tónico facial que a nossa estrela usa é o motor que mantém a máquina a girar. É o marketing do "eu" elevado ao estatuto de religião, onde o altar é um ecrã de cristal líquido e o dízimo é o nosso tempo precioso.

    O ridículo atinge o seu apogeu no campo da gastronomia. Antigamente, íamos a um restaurante para alimentar o corpo e conversar. Agora, vamos para alimentar o algoritmo. É um espetáculo deprimente ver quatro adultos sentados à volta de uma mesa, proibidos de tocar nos talheres porque a luz ainda não está "no ponto". O prato chega quente, exalando aromas que fariam um santo pecar, mas é submetido a uma sessão fotográfica digna de um catálogo de moda. Quando o influenciador finalmente autoriza o consumo, o risoto já é uma argamassa fria e a massa está mais colada do que a conta bancária de um estagiário. Mas não importa! A fotografia ficou "incrível", o filtro deu aquele ar de intelectualidade descontraída, e a legenda dirá: "Melhor jantar de sempre!". O sabor é irrelevante, o que conta é a prova digital de que o momento existiu sob uma luz favorável.

    E o que dizer das viagens? O influenciador não viaja para conhecer a cultura local ou a história dos monumentos. Ele viaja para encontrar "spots" instagrameáveis. Se um monumento histórico não tiver uma boa luz para uma pose de quem está "perdido nos seus pensamentos"  enquanto segura um vestido de seda que custa o PIB de uma pequena ilha  o monumento não presta. Vemo-los em Bali ou em Santorini, sempre com aquele ar de quem acabou de cair de um catálogo de luxo, ignorando olimpicamente os turistas reais que, ao fundo, lutam com mapas, suor e mochilas pesadas. O influenciador é um ser etéreo, que não transpira, cujos sapatos não se sujam na lama e cujos cabelos nunca são desmanchados pelo vento. É uma existência higienizada, uma Disney de si mesmos, onde o mundo serve apenas como um pano de fundo de cartão-pau para a sua própria vaidade.

    O ridículo torna-se perigoso quando passamos para a área da "opinião". Hoje, ser influenciador é ser especialista em tudo e em nada ao mesmo tempo. Num dia, explicam-nos como investir em criptomoedas; no outro, dão conselhos de psicologia clínica porque leram uma frase motivacional num pacote de açúcar ou viram um vídeo de dez segundos sobre o trauma. A autoridade já não vem do estudo, mas do número de seguidores. "Se tem um milhão de pessoas a ver, deve ser verdade", pensa o incauto seguidor. E assim se vendem chás que prometem milagres e cursos de "mentoria" para pessoas que querem ser... influenciadoras. É o esquema em pirâmide da vacuidade. Uma cobra que morde a própria cauda, alimentando-se de inseguranças alheias embrulhadas em papel de presente com laço de cetim.

    Assistir a um vídeo de unboxing é um exercício de paciência antropológica. A excitação fingida ao abrir uma caixa de sapatos é algo que deveria ser estudado em cursos de teatro de vanguarda. "Ai, meu Deus, olhem estes detalhes!". São sapatos, Cláudia. Têm sola e atacadores. Mas para o influenciador, cada produto enviado por uma marca é uma revelação divina, pelo menos até ao final do contrato. Há uma falta de pudor quase enternecedora na forma como a intimidade é vendida. Mostram os filhos, as crises de choro  devidamente iluminadas e as discussões conjugais por cliques. A vida privada tornou-se o inventário de uma loja que nunca fecha. É a "Big Brotherização" voluntária da sociedade, onde a privacidade é uma moeda de troca por uns quantos likes e um convite para uma festa.

    O que acontecerá quando a bateria acabar? Quando o algoritmo mudar e decidir que o bege já não está na moda? O ridículo reside na fragilidade deste império de pixéis. Por trás de cada "perfeição", há um ser humano exausto, a carregar baterias externas e a viver na ansiedade constante de ser esquecido pelo feed. A ironia final é que nós, os espectadores, somos cúmplices. Criticamos o ridículo enquanto fazemos scroll infinito, alimentando o monstro que dizemos desprezar. Rimo-nos da rapariga que faz uma dança no meio de uma tragédia, mas não conseguimos largar o ecrã.

    Talvez a verdadeira crónica não seja sobre eles, mas sobre a nossa necessidade coletiva de consumir vidas de plástico para ignorar a nossa própria realidade, às vezes cinzenta, mas infinitamente mais real. No fim do dia, prefiro o meu risoto quente e sem fotografias ao banquete frio de quem vive para a galeria. Porque, ao contrário dos filtros, a vida a cores  as cores reais, com olheiras, louça por lavar e conversas que ninguém grava  é a única que realmente vale o tempo investido. E se esta crónica tivesse um botão de "partilha", eu pediria que não o usassem, prefiro que fechem esta janela e vão, simplesmente, existir sem testemunhas digitais.

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