terça-feira, 5 de maio de 2026

O Ruído e A Centelha

(recuperado de  23 Maio 2025)

Desde criança, cultivei um desejo estranho: caber na prateleira do "mais-ou-menos", como um livro de lombada cinzenta que ninguém tira para folhear. Sonhava ser invisível o suficiente para me esconder entre as lombadas, mas vistoso o bastante para não ir parar aos saldos. Ser, enfim, estatística – o cidadão médio que preenche questionários sem levantar hipóteses. Depressa descobri, porém, que o rebanho é um lugar quentinho só até ao pasto acabar: as decisões vêm pré-mastigadas; basta seguir o carneiro da frente sem perguntar quem empunha o cajado.

Cada escolha que adiei trouxe-me o alívio de quem entrega a chave da própria casa a um senhorio qualquer, mas também a asfixia de quem troca pulmões por conveniência. Ser "normal" é um emprego extenuante: empurramos para debaixo do tapete as esquisitices, os amores desalinhados e as utopias noturnas até que o pó nos tape a boca. Nesse sufoco, percebi que cada um transporta um dialeto interior que a História ainda não alfabetizou – mesmo quem jura falar prosa sente, lá no fundo, uma urgência de irromper em poema. Não há estátuas para a mediocridade; todo o avanço exige um rasgo de desobediência. Foi assim que abril se fez por cá, e é assim que qualquer farol se acende quando o nevoeiro aperta.

Hoje, porém, o nevoeiro adensa-se de novo.

Na Alemanha, um partido extremista que há pouco cabia numa nota de rodapé já vale um quarto do eleitorado e ameaça a própria pedagogia do pós-guerra; em França, a extrema-direita liderou a primeira volta das legislativas convocadas à pressa, forçando um país inteiro a revisitar fantasmas que julgava arrumados; em Espanha, a mesma febre empurrou pactos, ruturas e saídas ruidosas de governos regionais, deixando democracia a oscilar como um tabuleiro de xadrez onde se perde sempre uma peça a cada jogada. A História não é circular; é espiral – volta sempre ao mesmo ponto, mas cada vez mais perto da nossa porta.

Por cá, dói assistir a quem se refugia no mantra «o voto é um direito» para despejar frustração nas urnas. Se o impulso é votar por revolta, que se use o voto em branco – essa é a indignação honesta. Atirar o boletim a um extremo sem ler sequer o primeiro parágrafo do programa é dar um pontapé na parede antes da maratona: fere o pé e não move a linha de partida. Pior: torna cúmplice quem legitima deputados que colecionam escândalos como quem coleciona autocolantes – de suspeitas de abuso a apelos à violência e furtos de bagagem em aeroportos.

Votar sem conhecer a agenda é aceitar correr vendado, benevolente perante todas as polémicas que já se conhecem. Democracia alguma é perfeita; range, tropeça, precisa de restauros constantes. Mas largá-la nas mãos de um eleitorado que nunca recebeu educação política digna desse nome é como entregar fósforos a quem não distingue pavio de rastilho. A ausência de literacia cívica no ensino secundário não é só ridícula, é perigosa.

Hannah Gadsby avisou, em Nanette, qualquer coisa como «a raiva é uma tensão tóxica, infeciosa; não conhece outro propósito senão espalhar ódio cego». Hoje, essa toxina viaja à velocidade de um scroll: o discurso de ódio tornou-se wireless, invisível e ubíquo, doando indignação instantânea antes mesmo de confirmarmos a morada.

A democracia, com todos os seus remendos, continua a ser o melhor palco que inventamos para discordar sem nos degolarmos, mas estala nas costuras sempre que quem a habita desconhece o guião.

Há quem diga que «quando a esmola é muita, o pobre desconfia»; desconfiemos, então.

Troquemos manchetes por parágrafos, devolvamos profundidade às conversas ‘pixeladas’ e recusemos moldes que nos extinguem as cores. Porque quem se habitua a pintar dentro dos traços acaba por não distinguir o semáforo do abismo.

Se um dia me vires a remar contra a maré, não me chames rebelde: chama-me necessário. Há horas em que desobedecer à resignação é a única forma de continuar a respirar.

A ver se não me esqueço:

Não te conformes com maneiras de existir que diminuam a tua fome de estar vivo.

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