Desde criança, cultivei
um desejo estranho: caber na prateleira do "mais-ou-menos", como um
livro de lombada cinzenta que ninguém tira para folhear. Sonhava ser invisível
o suficiente para me esconder entre as lombadas, mas vistoso o bastante para
não ir parar aos saldos. Ser, enfim, estatística – o cidadão médio que preenche
questionários sem levantar hipóteses. Depressa descobri, porém, que o rebanho
é um lugar quentinho só até ao pasto acabar: as decisões vêm pré-mastigadas;
basta seguir o carneiro da frente sem perguntar quem empunha o cajado.
Cada escolha que adiei
trouxe-me o alívio de quem entrega a chave da própria casa a um senhorio
qualquer, mas também a asfixia de quem troca pulmões por conveniência. Ser "normal"
é um emprego extenuante: empurramos para debaixo do tapete as esquisitices, os
amores desalinhados e as utopias noturnas até que o pó nos tape a boca. Nesse
sufoco, percebi que cada um transporta um dialeto interior que a História ainda
não alfabetizou – mesmo quem jura falar prosa sente, lá no fundo, uma urgência
de irromper em poema. Não há estátuas para a mediocridade; todo o avanço exige
um rasgo de desobediência. Foi assim que abril se fez por cá, e é assim que
qualquer farol se acende quando o nevoeiro aperta.
Hoje, porém, o nevoeiro
adensa-se de novo.
Na Alemanha, um partido
extremista que há pouco cabia numa nota de rodapé já vale um quarto do
eleitorado e ameaça a própria pedagogia do pós-guerra; em França, a
extrema-direita liderou a primeira volta das legislativas convocadas à pressa,
forçando um país inteiro a revisitar fantasmas que julgava arrumados; em
Espanha, a mesma febre empurrou pactos, ruturas e saídas ruidosas de governos
regionais, deixando democracia a oscilar como um tabuleiro de xadrez onde se
perde sempre uma peça a cada jogada. A História não é circular; é espiral –
volta sempre ao mesmo ponto, mas cada vez mais perto da nossa porta.
Por cá, dói assistir a
quem se refugia no mantra «o voto é um direito» para despejar frustração nas
urnas. Se o impulso é votar por revolta, que se use o voto em branco – essa é a
indignação honesta. Atirar o boletim a um extremo sem ler sequer o primeiro
parágrafo do programa é dar um pontapé na parede antes da maratona: fere o pé e
não move a linha de partida. Pior: torna cúmplice quem legitima deputados que
colecionam escândalos como quem coleciona autocolantes – de suspeitas de abuso
a apelos à violência e furtos de bagagem em aeroportos.
Votar sem conhecer a
agenda é aceitar correr vendado, benevolente perante todas as polémicas que já
se conhecem. Democracia alguma é perfeita; range, tropeça, precisa de restauros
constantes. Mas largá-la nas mãos de um eleitorado que nunca recebeu educação
política digna desse nome é como entregar fósforos a quem não distingue pavio
de rastilho. A ausência de literacia cívica no ensino secundário não é só
ridícula, é perigosa.
Hannah Gadsby avisou, em Nanette,
qualquer coisa como «a raiva é uma tensão tóxica, infeciosa; não conhece outro
propósito senão espalhar ódio cego». Hoje, essa toxina viaja à velocidade de um
scroll: o discurso de ódio tornou-se wireless, invisível e
ubíquo, doando indignação instantânea antes mesmo de confirmarmos a morada.
A democracia, com todos
os seus remendos, continua a ser o melhor palco que inventamos para discordar
sem nos degolarmos, mas estala nas costuras sempre que quem a habita desconhece
o guião.
Há quem diga que «quando
a esmola é muita, o pobre desconfia»; desconfiemos, então.
Troquemos manchetes por
parágrafos, devolvamos profundidade às conversas ‘pixeladas’ e recusemos moldes
que nos extinguem as cores. Porque quem se habitua a pintar dentro dos traços
acaba por não distinguir o semáforo do abismo.
Se um dia me vires a
remar contra a maré, não me chames rebelde: chama-me necessário. Há horas em
que desobedecer à resignação é a única forma de continuar a respirar.
A ver se não me esqueço:
Não te conformes com
maneiras de existir que diminuam a tua fome de estar vivo.
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