quinta-feira, 14 de maio de 2026

O FOGO QUE FAZ ESQUECER

O primeiro sinal que aparece nem sempre é o fogo.

Às vezes é apenas o cheiro.


Um cheiro estranho no meio do ar quente de agosto, misturando com um vento seco e silêncio. Depois começa aparecer as mensagens nos telemóveis, os helicópteros no céu e as sirenes ao longe. E entramos na fase em que Portugal fica num estado de ansiedade coletiva que já conhece muito bem.


Todos os verões, o país parece transformar-se num rastilho que simplesmente está a espera de uma faísca.

Existe algo profundamente triste na forma como ficamos habituados aos incêndios florestais.

Falamos deles no verão como quem fala do calor ou da praia, quase como se fosse tradição da estação. Junho traz as festas populares, agosto traz os emigrantes e no meio disto chegam as chamas. Como se já fizesse parte da identidade do nosso país.


Mas não pode ser assim.

Uma floresta não arde apenas sozinha


Por trás de cada incêndio existe abandono, existe aldeias vazias onde antes havia pessoas a cuidar da terra. Existe as serras entregues ao mato, os caminhos esquecidos, os terrenos sem dono e as políticas adiadas ano após anos. O fogo nasce muitas das vezes antes da primeira chama.


Mas quando começa, até ganha vida própria.


As labaredas sobem encostas como se fossem animais famintos. O vento transforma pequenos focos em monstros impossíveis de controlar, a noite fica laranja e o céu deixa de "existir". Há famílias a molhar telhados às três da manhã, idosos a abandonar as suas casas, crianças a olhar para o horizonte com medo de algo que ainda não compreendem.


E no meio disto tudo, surgem os bombeiros.


Homens e mulheres comuns entram no inferno enquanto todos fogem dele.


Existe qualquer coisa de cruel na relação que o país tem com os bombeiros. São apenas relembrados quando precisamos de heróis. Durante o verão são considerados orgulho nacional, aparecem na televisão, recebem aplausos, homenagens e discursos, mas depois vem o inverno e com a chuva o país acaba por voltar a esquecer.


Secalhar o maior problema dos incêndios em Portugal seja a memória curta.

Ardemos depressa e esquecemos ainda mais depressa.

São prometidas mudanças quando vemos montanhas negras na televisão, dizemos sempre que será diferente no próximo ano, mas os meses passam e a urgência desaparece e tudo fica igual. A floresta continua desordenada, o país continua a reagir ao fogo em vez de o prevenir.


E talvez seja isso o mais assustador, não o fogo em si, mas a normalidade com que olhamos para ele.

Um país que se habitou a ver as suas florestas sempre a arder corre o risco de começar também deixar arder a sua responsabilidade, a sua memória e a sua consciência.


A floresta portuguesa não pede pena

Pede cuidado antes das chamas, e não as lágrimas depois das cinzas

 

Sem comentários:

Enviar um comentário

O Amor na Era do "Visto por Último"

       Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo  que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia e...