quarta-feira, 13 de maio de 2026

Entre o barulho e o silêncio

A cidade cansa-me. O interior também.

Na cidade, tudo parece acontecer depressa demais. Há sempre barulho, trânsito, pessoas atrasadas e a sensação constante de que nunca há tempo suficiente para nada. Vive-se no automático. Acordar, sair, voltar, repetir. No meio de tanta gente, acaba por existir uma estranha sensação de solidão.

Durante muito tempo, achei que precisava de fugir disso tudo. E talvez por isso o interior parecesse tão reconfortante. O silêncio, a calma, as ruas vazias, o ritmo lento. Há qualquer coisa nas pequenas vilas que nos faz respirar de forma diferente, como se a vida ali tivesse menos pressa de acontecer.

Mas o problema é que o silêncio também se torna cansativo. Ao início sabe bem não ouvir carros nem confusão, mas, passado algum tempo, parece que nada acontece. O tempo passa devagar demais. Há uma sensação constante de estar longe de tudo, quase como se o mundo continuasse a andar sem nós.

E talvez seja isso que mais me intriga. Quando estou na cidade, só penso na tranquilidade do interior. Quando estou no interior, começo a sentir falta do movimento da cidade. Como se nenhum dos dois fosse suficiente durante muito tempo.

Passamos a vida a idealizar o lado oposto daquele onde estamos. A cidade parece excessiva até chegarmos ao silêncio. O interior parece tranquilo até se tornar vazio. E, no meio disso tudo, acabamos presos entre dois extremos que, de formas diferentes, nos cansam na mesma.

Talvez o problema nunca tenha sido a cidade ou o interior. Talvez o problema seja esta necessidade constante de procurar noutro lugar aquilo que, por muito tempo, nunca conseguimos encontrar completamente em lado nenhum.

Inês Garção



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