A chuva tem uma estranha capacidade de transformar as
pessoas. As ruas ficam mais silenciosas, os passos mais rápidos e os
pensamentos mais altos. Num dia de sol, o mundo parece empurrar-nos para fora
de casa, num dia de chuva, empurra-nos para dentro de nós próprios.
A chuva abranda tudo, as ruas tornam-se mais lentas, os
cafés ganham vida e as janelas passam a ser lugares de observação silenciosa.
Nos dias de chuva, até o relógio parece andar mais devagar.
Curiosamente, a chuva não afeta toda a gente da mesma forma,
há quem fique triste e preso em memórias antigas (como é o meu caso). Outros
sentem conforto. Há pessoas que adoram ouvir a chuva cair enquanto bebem café
ou ficam enroladas numa manta a ouvir música calma. Como se o mau tempo desse
autorização para descansar da pressão constante de ter de estar sempre bem,
sempre produtivo, sempre ocupado.
Em criança, a chuva tinha outro significado. Era sinónimo de
poças de água, botas molhadas e desculpas para faltar ao recreio. Hoje, quase
sempre, significa trânsito, roupa encharcada e guarda-chuvas esquecidos. Talvez
crescer seja também isto, deixar de ver magia na chuva e começar a ver
inconveniência.
Mas, mesmo assim, há qualquer coisa nela que continua
especial. Talvez porque a chuva nos obriga a parar por alguns segundos.
Obriga-nos a olhar pela janela, a ouvir o silêncio entre as gotas, a pensar em
coisas que normalmente evitamos no meio da correria dos dias normais. Num mundo
onde tudo acontece depressa demais, a chuva cria um intervalo.
E talvez seja exatamente por isso que ela muda o humor. Não
porque traga tristeza, mas porque traz reflexão. No fundo, a chuva não cai
apenas sobre as cidades, cai também sobre as memórias.
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