domingo, 10 de maio de 2026

A geografia do meu coração: cinco anos dentro das quatro linhas

Amarmos um desporto anos a fio torna-se parte de nós. Amarmos um desporto sem perder o brilho e a felicidade por cada jogo é um amor sentido do início ao fim. E eu amo um desporto. E ele chama-se voleibol. Talvez o ame porque sempre joguei com uma equipa que eram mais do que meras colegas de equipa. Talvez o ame porque joguei alguns anos. 

Mas a verdade é que, depois de tanto tempo, o voleibol já não é algo que eu apenas faço porque gosto, é o lugar onde eu existo com mais verdade. É curioso como o nosso corpo guarda memórias que a cabeça, às vezes, esquece. Mesmo depois de anos, o toque da bola nos braços ainda desperta o mesmo formigueiro elétrico. A rede, vista de baixo, continua a parecer um desafio que exige o melhor de mim, e o som da bola a bater no chão depois de um ataque certeiro ainda é a minha melodia favorita.

E as minhas colegas... elas são o arquivo vivo desta história. Partilhámos joelheiras rotas, vitórias choradas e derrotas que nos ensinaram a crescer mais do que qualquer manual de tática. Os treinadores mudaram, a equipa mudou e os esquemas táticos evoluíram, mas a união permaneceu como a única constante. No entanto, houve um momento em que achei que essa linha se ia partir. Lembro-me, como se fosse hoje, do meu último jogo no secundário. Estávamos no Regional, frente a frente com as melhores equipas, e o peso da rede parecia maior do que nunca. Quando o último ponto caiu contra nós, o chão pareceu fugir-me. Chorei. Chorei horrores, eu e mais umas quantas. Não era apenas pela derrota no marcador, era pela despedida. Era o nosso último jogo juntas antes da dispersão da universidade. Doeu muito pensar que não ia mais jogar com elas, as minhas miúdas. Chorei até chegar a casa, com o coração apertado de uma criança pequena que se recusa a largar o seu brinquedo favorito. Naquele dia, a dor de dizer adeus à equipa era maior do que o cansaço do jogo. Mas a vida, tal como um set difícil, dá-nos a oportunidade da recuperação.

Hoje, a caminho do meu quinto ano consecutivo a jogar, agora na universidade, percebo que aquele choro foi o adubo para o que sinto hoje. Jogo há quatro anos e olho para trás e vejo o quanto evoluí. Comecei sem saber dar um toque básico e hoje ocupo o meu lugar como líbero, a alma defensiva, aquela que se atira ao chão para que a bola e o sonho não morram.

O voleibol é um desporto longo, de paciência. Não se aprende em meses, nem se domina em anos. Mesmo agora, sei que há um universo por aprender, mas é essa busca constante que me mantém viva. Sinto cada ponto como se fosse o último, sinto cada defesa como um ato de resistência. É uma paixão, uma consistência, um amor que perdura.

Hoje, sinto cada treino como um processo de crescimento bruto. É ali que ganho a garra que levo para a vida, aquela vontade de não deixar nada cair. E quando chega o dia do jogo? Que privilégio é sentir o corpo ansioso, o estômago às avessas e o coração acelerado. Há quem fuja dessa pressão, mas eu abraço-a. Que bom que é sentir o sangue a correr nas veias desta maneira. Que sorte a minha ter algo que me faz vibrar assim. 


No final das contas, ser líbero é a metáfora perfeita para o que sinto por este desporto. É estar ali, no rés do chão, a ver o mundo de uma perspetiva que poucos compreendem. O voleibol ensinou-me que cair não é o fim, mas sim o início de uma nova jogada. Olho para as minhas mãos e vejo a história destes cinco anos. Vejo as marcas das bolas defendidas e sinto o peso das memórias. O amor pelo voleibol é um compromisso que assinei com a minha própria felicidade. É a certeza de que, enquanto houver uma bola no ar, eu terei um propósito. 


O voleibol é a batida do meu coração traduzida em jogo. Uma paixão que me faz sentir viva a cada toque e que nunca, em momento algum, deixará a bola cair.


Sem comentários:

Enviar um comentário

O Amor na Era do "Visto por Último"

       Namorar já teve as suas regras bem definidas. Houve um tempo  que hoje parece saído de um romance histórico em que namorar envolvia e...