Amarmos um desporto anos a fio torna-se parte de nós. Amarmos um desporto sem perder o brilho e a felicidade por cada jogo é um amor sentido do início ao fim. E eu amo um desporto. E ele chama-se voleibol. Talvez o ame porque sempre joguei com uma equipa que eram mais do que meras colegas de equipa. Talvez o ame porque joguei alguns anos.
Mas a verdade é que, depois de tanto tempo, o voleibol já não é algo que eu apenas faço porque gosto, é o lugar onde eu existo com mais verdade. É curioso como o nosso corpo guarda memórias que a cabeça, às vezes, esquece. Mesmo depois de anos, o toque da bola nos braços ainda desperta o mesmo formigueiro elétrico. A rede, vista de baixo, continua a parecer um desafio que exige o melhor de mim, e o som da bola a bater no chão depois de um ataque certeiro ainda é a minha melodia favorita.
E as minhas colegas... elas são o arquivo vivo desta história. Partilhámos joelheiras rotas, vitórias choradas e derrotas que nos ensinaram a crescer mais do que qualquer manual de tática. Os treinadores mudaram, a equipa mudou e os esquemas táticos evoluíram, mas a união permaneceu como a única constante. No entanto, houve um momento em que achei que essa linha se ia partir. Lembro-me, como se fosse hoje, do meu último jogo no secundário. Estávamos no Regional, frente a frente com as melhores equipas, e o peso da rede parecia maior do que nunca. Quando o último ponto caiu contra nós, o chão pareceu fugir-me. Chorei. Chorei horrores, eu e mais umas quantas. Não era apenas pela derrota no marcador, era pela despedida. Era o nosso último jogo juntas antes da dispersão da universidade. Doeu muito pensar que não ia mais jogar com elas, as minhas miúdas. Chorei até chegar a casa, com o coração apertado de uma criança pequena que se recusa a largar o seu brinquedo favorito. Naquele dia, a dor de dizer adeus à equipa era maior do que o cansaço do jogo. Mas a vida, tal como um set difícil, dá-nos a oportunidade da recuperação.
Hoje, a caminho do meu quinto ano consecutivo a jogar, agora na universidade, percebo que aquele choro foi o adubo para o que sinto hoje. Jogo há quatro anos e olho para trás e vejo o quanto evoluí. Comecei sem saber dar um toque básico e hoje ocupo o meu lugar como líbero, a alma defensiva, aquela que se atira ao chão para que a bola e o sonho não morram.
O voleibol é um desporto longo, de paciência. Não se aprende em meses, nem se domina em anos. Mesmo agora, sei que há um universo por aprender, mas é essa busca constante que me mantém viva. Sinto cada ponto como se fosse o último, sinto cada defesa como um ato de resistência. É uma paixão, uma consistência, um amor que perdura.
Hoje, sinto cada treino como um processo de crescimento bruto. É ali que ganho a garra que levo para a vida, aquela vontade de não deixar nada cair. E quando chega o dia do jogo? Que privilégio é sentir o corpo ansioso, o estômago às avessas e o coração acelerado. Há quem fuja dessa pressão, mas eu abraço-a. Que bom que é sentir o sangue a correr nas veias desta maneira. Que sorte a minha ter algo que me faz vibrar assim.
No final das contas, ser líbero é a metáfora perfeita para o que sinto por este desporto. É estar ali, no rés do chão, a ver o mundo de uma perspetiva que poucos compreendem. O voleibol ensinou-me que cair não é o fim, mas sim o início de uma nova jogada. Olho para as minhas mãos e vejo a história destes cinco anos. Vejo as marcas das bolas defendidas e sinto o peso das memórias. O amor pelo voleibol é um compromisso que assinei com a minha própria felicidade. É a certeza de que, enquanto houver uma bola no ar, eu terei um propósito.
O voleibol é a batida do meu coração traduzida em jogo. Uma paixão que me faz sentir viva a cada toque e que nunca, em momento algum, deixará a bola cair.
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