Viver na aldeia ou na cidade é, no fundo, escolher o tipo de silêncio que queremos ouvir.
Na aldeia, o silêncio é diferente: o som do galo a cantar, que para muitos serve de despertador; o vento que passa pelas árvores; e o caminhar daqueles que nela vivem e que se cumprimentam sempre. O tempo parece ser maior, como se os dias tivessem mais horas, só para haver mais um pouco de conversa entre os vizinhos ou mais um café, que nem sempre é “só um café”.
Na cidade, o silêncio é de outra
maneira. É coisa rara e, maioritariamente, para alguns, um luxo. Vive-se num
misto de acontecimentos: buzinas, telefonemas, notificações e pessoas com muita
pressa, como se andassem sempre atrasadas para os seus compromissos. Aqui,
poucas são as pessoas que se conhecem, ao contrário das aldeias, onde toda a
gente praticamente se conhece, e, às vezes, possa parecer estranho, pode ser um
alívio. Há liberdade no anonimato, na possibilidade de sermos só mais um no
meio da multidão.
A vida na aldeia é completamente
diferente: toda a gente sabe a vida de todos. Todas as pessoas que moram na
aldeia sabem quando saímos, quando chegamos e até quando mudamos de humor. Pode
parecer um pouco invasivo, mas existe sempre aquela pessoa que repara quando já
não aparecemos há dias. São memórias coletivas, histórias repetidas à lareira,
os nomes que passam de geração em geração, lugares que ficam iguais, como se
fossem resistentes ao tempo.
Na cidade, se lá não formos há
dias, ninguém dá conta, e os dias tanto podem ser solidão como paz. Mas a
cidade não tem só coisas más: é lá que podem existir novas oportunidades, novos
encontros, novas versões de cada um de nós. A cidade reinventa quem somos,
mesmo sem aviso.
E o tempo na aldeia é diferente:
ele passa devagar, mesmo muito devagar. Aprendemos a esperar — pela colheita,
pelas estações, pela chuva. Já na cidade, o tempo passa tão depressa que nem
damos conta, por vezes, das coisas. A vida é vivida entre horários, agendas e
alarmes.
Na aldeia, temos detalhes que só lá
se podem sentir e ver: as noites escuras, com o céu estrelado, que parecem
próximas de nós. As luzes apagam o céu na cidade, mas é lá que temos ideias,
ambições e sonhos. Num lugar aprendemos a olhar para cima; no outro, a manter
os olhos no horizonte.
A verdadeira diferença não está só
no sítio, mas no ritmo que tomamos. Existem pessoas que precisam de barulho
para se sentirem vivas; há quem encontre isso no som das folhas a mexer. E há
até quem goste de viver nestes dois mundos, levando a calma da aldeia para a
correria da cidade.
No final disto tudo, escolher entre
viver na aldeia ou na cidade é apenas uma escolha geográfica e de respiração:
se queremos inspirar fundo devagar ou respirar no meio da multidão.
E talvez o maior desafio seja esse:
perceber que, onde quer que estejamos, estamos sempre à procura da mesma coisa, um lugar onde a vida faça sentido, mesmo nos dias mais comuns.
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