quinta-feira, 21 de maio de 2026

Aquilo que deixamos de ver

Habituamo-nos tão depressa às coisas boas, que acabamos por deixar de as ver.

Transformamos pequenos privilégios em rotina sem sequer perceber. A casa onde voltamos todos os dias, as pessoas que estão sempre presentes, os momentos simples que, por acontecerem tantas vezes, deixam lentamente de parecer especiais. Como se aquilo que é constante deixasse automaticamente de ter valor.

Passamos tanto tempo focados naquilo que nos falta, que nos esquecemos de olhar para aquilo que já temos. Queremos sempre mais tempo, mais dinheiro, mais conquistas, mais qualquer coisa. E, no meio dessa procura constante, acabamos por ignorar coisas que, noutro momento da nossa vida, talvez tivéssemos desejado profundamente.

O mais estranho é que, muitas vezes, só percebemos o valor de algo quando deixamos de o ter. Quando a rotina muda, quando alguém se afasta, quando um momento deixa de acontecer da mesma forma. É aí que percebemos que aquilo que parecia normal era, afinal, importante.

Talvez a rotina tenha essa capacidade silenciosa de esconder as coisas boas debaixo do hábito. Tudo continua lá, mas deixamos de reparar. Como quem passa todos os dias pelo mesmo lugar e, passado algum tempo, já nem levanta os olhos para o observar.

E talvez seja por isso que estamos constantemente à procura de algo novo, como se a felicidade estivesse sempre no próximo momento e nunca naquele onde já estamos. Procuramos tanto aquilo que ainda não chegou, que deixamos escapar aquilo que já fazia parte da nossa vida.

No fundo, talvez o problema nunca tenha sido a falta de coisas boas. Talvez tenhamos apenas desaprendido a repará-las.


Inês Garção

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