O despertador ainda não tocou, mas os olhos já estão abertos. Na verdade, há quem diga que o corpo acorda ali, naquele minuto, mas a verdade é que a mente nunca chegou a adormecer. Ficou em vigilância, a correr pistas imaginárias no teto do quarto, a antecipar curvas, a contar os passos até à meta.
Há uma solidão tremenda nas horas que antecedem uma prova. Um turbilhão silencioso de sentimentos, entre os quais, nervos e ansiedade. O deitar na cama na noite antes da prova faz-nos quase ser filósofos, de tanto que pensamos. Pensa-se se podemos não fazer a prova. Se vão estar muitas pessoas ou se faremos um mau tempo.
Verbalizar a palavra prova ou ouvi-la cria ansiedade no peito e complexos grandes na mente. O que queima no peito antes da partida não é o medo de perder a corrida, é o medo de não honrar o caminho que nos trouxe até aqui.
O levantar, vestir e fazer a mochila deixa o coração a tremer, as mãos inquietas e as pernas fracas. O pequeno-almoço não tem grande sabor e a fome parece nem existir. Uma prova parece ser só correr e dizem-nos sempre para não ficarmos nervosos mas não fazem ideia de que a prova já começa ao acordar quando lutamos contra a nossa própria mente porque o atletismo mais do que físico é uma prova mental connosco próprios.
Sair de casa com a mochila às costas é cruzar uma linha de não retorno. O caminho até à pista é feito de um silêncio profundo de fones nos ouvidos a ecoar apenas a música para levar a mente a distrair-se enquanto ainda é possível. Mas quando o carro estaciona e temos de sair parece que nos falta oxigênio para respirar normalmente. O burburinho das bancadas, o som metálico dos altifalantes a anunciar as séries e o bater seco dos sapatos de bicos no chão transformam o ambiente. Vemos os outros atletas. Na nossa mente, já fragilizada, todos eles parecem mais calmos, mais rápidos, mais preparados. Sentimo-nos pequenos dentro da nossa própria pele. Entrar na pista para o aquecimento é como estar na praia e começar a chover. O coração bate na garganta, as mãos continuam frias e o suor que nos escorre pela testa ainda é de pura ansiedade. O corpo resiste, pesado, como se nos implorasse para não o submetermos àquela dor. Antes de pisar a pista, antes sequer de ouvir o barulho das bancadas ou o sinal de partida, a verdadeira batalha já foi travada e ganha no balneário: a batalha de aceitar o medo, respirar fundo e, ainda assim, dar o primeiro passo em frente.
Mas depois, acontece o milagre
do foco.
Colocamos o dorsal na camisola, chamam o nosso nome e caminhamos para a linha de partida ou para os blocos. Os nervos não desaparecem por milagre. Eles continuam lá, a esmagar o peito. As pernas ainda parecem de chumbo. Mas há um segundo. Um único segundo. Entre o "aos vossos lugares" e o tiro, em que o turbilhão silencia. O erro de quem está de fora é achar que o nervosismo nos enfraquece. Não percebem que este turbilhão é o corpo a blindar-se. O medo não nos paralisa, afia os nossos sentidos. E quando o dedo do juiz de partida se aproxima do gatilho e o silêncio faz-se sentir na pista, aquela mente que nos massacrou desde o acordar finalmente cala-se. Ela sabe que a guerra connosco próprios já foi ganha. Agora, é só correr.
E a verdade é que eu ainda não corri, mas já me sinto neste turbilhão de sentimentos só de escrever esta crónica.
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