Há qualquer coisa de profundamente estranha no facto de uma criança de dez anos saber distinguir um sérum antioxidante de um creme hidratante enquanto continua, provavelmente, sem perceber bem como funcionam os impostos ou porque é que temos de estudar frações. Ainda assim, ali estão elas, no Instagram, diante de um espelho iluminado por um aro de luz maior do que a própria autoestima, a explicar ao mundo a importância de “cuidar da pele desde cedo”.
Desde cedo. Como se a
infância tivesse prazo de validade.
Ultimamente, o algoritmo
decidiu oferecer-me vídeos de crianças com rotinas de «skin care» mais
complexas do que o meu currículo académico. Há máscaras faciais, «patches»
para olheiras inexistentes, massagens com pedras frias retiradas de um
congelador que provavelmente devia guardar apenas douradinhos e gelo para
Coca-Cola. Tudo apresentado com uma calma quase profissional, como se a miúda
não tivesse acabado de aprender a divisão silábica há meia dúzia de meses.
E eu fico sempre com a
sensação de que a própria pele da criança deve estar em pânico. Uma pele lisa,
impecável, praticamente acabada de sair da fábrica, a levar com tratamentos «anti-idade»
como quem tenta salvar um edifício em ruínas.
O mais curioso é que isto
já nem parece extraordinário. Tornou-se manso, banal, quase esperado. Há uma
geração inteira a crescer convencida de que envelhecer é uma tragédia que deve
ser combatida antes mesmo de existir. E talvez seja essa a parte mais triste:
crianças a herdarem inseguranças que nem sequer tiveram tempo de desenvolver
sozinhas.
Claro que cuidar da
aparência não é um problema. Todos gostamos de nos sentir minimamente
apresentáveis. Há um certo prazer em sair de casa sem parecer um saco de roupa
esquecida num canto do quarto. O problema começa quando o cuidado deixa de ser
bem-estar e passa a ser performance. Quando cada gesto é pensado para ser
filmado, publicado e avaliado por desconhecidos que distribuem aprovação
através de corações digitais.
Porque já não basta
existir. Agora é preciso existir de forma esteticamente convincente.
E os pais? Bom, os pais
parecem assistir a tudo isto com o entusiasmo de quem descobriu um talento
precoce. Antigamente havia crianças-prodígio ao piano; hoje há especialistas em
contorno facial no quinto ano de escolaridade. Não tarda muito e teremos miúdos
a pedir ácido hialurónico como presente de aniversário enquanto os avós tentam
perceber porque é que a criança precisa de “hidratação intensiva” aos onze
anos.
O argumento utilizado
costuma ser sempre o mesmo: “Ela diverte-se”. E acredito que sim. Uma criança
diverte-se facilmente. Também se divertiria a comer gelados ao pequeno-almoço
durante um mês seguido ou a atravessar a rua sem olhar para os lados. A capacidade
infantil de gostar de uma coisa nunca foi um grande critério educativo.
Mas há uma diferença
entre brincar e aprender a transformar a própria imagem num produto. Porque é
isso que muitas destas redes sociais incentivam: uma espécie de mercado
permanente da aparência, onde até a infância começa a ser tratada como uma
montra.
E depois existe aquele
detalhe inquietante que raramente entra nas conversas mais panfletárias sobre
“liberdade criativa” nas redes: a internet não é um recreio supervisionado. É
um espaço caótico, por vezes cruel, onde basta um comentário infeliz para ficar
alojado na cabeça de alguém durante anos. Um adulto já pode ter dificuldade em
lidar com julgamento constante; imaginar uma criança a crescer dependente dessa
validação parece-me um caminho perigosamente escasso em equilíbrio emocional.
Talvez o mais irónico
seja que tudo isto acontece em nome da autoestima, quando na verdade parece
produzir exatamente o contrário. Quanto mais alguém aprende a medir o seu valor
pela reação dos outros, mais distante fica da possibilidade de gostar genuinamente
de si próprio. É uma corrida impossível de ganhar, porque a perfeição da
internet funciona como o horizonte: parece estar ali à frente, mas afasta-se
sempre mais um bocadinho.
E no meio disto tudo há
crianças que talvez só precisassem de fazer aquilo que crianças sempre fizeram
bem: brincar, cair, sujar-se, ter fases constrangedoras e cortes de cabelo
duvidosos sem que isso fique eternamente arquivado numa plataforma digital.
Pode ser uma visão
antiquada da minha parte. Talvez daqui a uns anos seja perfeitamente normal uma
rotina antirrugas antes dos trabalhos de casa. Talvez existam mochilas
escolares com compartimentos próprios para séruns e água micelar. Mas,
sinceramente, continuo a achar estranho que haja crianças preocupadas em
parecer eternamente jovens numa fase da vida em que ainda deviam estar apenas
preocupadas em ser crianças.
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