terça-feira, 12 de maio de 2026

Demasiado Novos para Ter Medo das Rugas

Há qualquer coisa de profundamente estranha no facto de uma criança de dez anos saber distinguir um sérum antioxidante de um creme hidratante enquanto continua, provavelmente, sem perceber bem como funcionam os impostos ou porque é que temos de estudar frações. Ainda assim, ali estão elas, no Instagram, diante de um espelho iluminado por um aro de luz maior do que a própria autoestima, a explicar ao mundo a importância de “cuidar da pele desde cedo”.

Desde cedo. Como se a infância tivesse prazo de validade.

Ultimamente, o algoritmo decidiu oferecer-me vídeos de crianças com rotinas de «skin care» mais complexas do que o meu currículo académico. Há máscaras faciais, «patches» para olheiras inexistentes, massagens com pedras frias retiradas de um congelador que provavelmente devia guardar apenas douradinhos e gelo para Coca-Cola. Tudo apresentado com uma calma quase profissional, como se a miúda não tivesse acabado de aprender a divisão silábica há meia dúzia de meses.

E eu fico sempre com a sensação de que a própria pele da criança deve estar em pânico. Uma pele lisa, impecável, praticamente acabada de sair da fábrica, a levar com tratamentos «anti-idade» como quem tenta salvar um edifício em ruínas.

O mais curioso é que isto já nem parece extraordinário. Tornou-se manso, banal, quase esperado. Há uma geração inteira a crescer convencida de que envelhecer é uma tragédia que deve ser combatida antes mesmo de existir. E talvez seja essa a parte mais triste: crianças a herdarem inseguranças que nem sequer tiveram tempo de desenvolver sozinhas.

Claro que cuidar da aparência não é um problema. Todos gostamos de nos sentir minimamente apresentáveis. Há um certo prazer em sair de casa sem parecer um saco de roupa esquecida num canto do quarto. O problema começa quando o cuidado deixa de ser bem-estar e passa a ser performance. Quando cada gesto é pensado para ser filmado, publicado e avaliado por desconhecidos que distribuem aprovação através de corações digitais.

Porque já não basta existir. Agora é preciso existir de forma esteticamente convincente.

E os pais? Bom, os pais parecem assistir a tudo isto com o entusiasmo de quem descobriu um talento precoce. Antigamente havia crianças-prodígio ao piano; hoje há especialistas em contorno facial no quinto ano de escolaridade. Não tarda muito e teremos miúdos a pedir ácido hialurónico como presente de aniversário enquanto os avós tentam perceber porque é que a criança precisa de “hidratação intensiva” aos onze anos.

O argumento utilizado costuma ser sempre o mesmo: “Ela diverte-se”. E acredito que sim. Uma criança diverte-se facilmente. Também se divertiria a comer gelados ao pequeno-almoço durante um mês seguido ou a atravessar a rua sem olhar para os lados. A capacidade infantil de gostar de uma coisa nunca foi um grande critério educativo.

Mas há uma diferença entre brincar e aprender a transformar a própria imagem num produto. Porque é isso que muitas destas redes sociais incentivam: uma espécie de mercado permanente da aparência, onde até a infância começa a ser tratada como uma montra.

E depois existe aquele detalhe inquietante que raramente entra nas conversas mais panfletárias sobre “liberdade criativa” nas redes: a internet não é um recreio supervisionado. É um espaço caótico, por vezes cruel, onde basta um comentário infeliz para ficar alojado na cabeça de alguém durante anos. Um adulto já pode ter dificuldade em lidar com julgamento constante; imaginar uma criança a crescer dependente dessa validação parece-me um caminho perigosamente escasso em equilíbrio emocional.

Talvez o mais irónico seja que tudo isto acontece em nome da autoestima, quando na verdade parece produzir exatamente o contrário. Quanto mais alguém aprende a medir o seu valor pela reação dos outros, mais distante fica da possibilidade de gostar genuinamente de si próprio. É uma corrida impossível de ganhar, porque a perfeição da internet funciona como o horizonte: parece estar ali à frente, mas afasta-se sempre mais um bocadinho.

E no meio disto tudo há crianças que talvez só precisassem de fazer aquilo que crianças sempre fizeram bem: brincar, cair, sujar-se, ter fases constrangedoras e cortes de cabelo duvidosos sem que isso fique eternamente arquivado numa plataforma digital.

Pode ser uma visão antiquada da minha parte. Talvez daqui a uns anos seja perfeitamente normal uma rotina antirrugas antes dos trabalhos de casa. Talvez existam mochilas escolares com compartimentos próprios para séruns e água micelar. Mas, sinceramente, continuo a achar estranho que haja crianças preocupadas em parecer eternamente jovens numa fase da vida em que ainda deviam estar apenas preocupadas em ser crianças.

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