quarta-feira, 20 de maio de 2026

Licenciados em sobreviver

Esta semana voltou-se a falar da habitação em Portugal, mas bastava entrar numa residência universitária, num quarto arrendado por seiscentos euros ou numa chamada entre pais e filhos para perceber que o problema já não é apenas económico. Tornou-se emocional.

Os universitários portugueses vivem hoje numa espécie de intervalo permanente: demasiado velhos para depender completamente dos pais, demasiado pobres para serem verdadeiramente independentes.

Há estudantes que escolhem universidades não pelo curso, mas pela cidade onde ainda conseguem pagar um quarto. Outros fazem duas horas de comboio todos os dias porque viver perto da faculdade é um luxo reservado a poucos. E depois há os que entram na universidade com entusiasmo académico e acabam especialistas em folhas Excel, subsídios, rendas e promoções de supermercado.

A universidade devia ser o lugar das primeiras descobertas. Descobre-se um autor, uma teoria, uma paixão, uma vocação. Mas muitos estudantes descobrem primeiro o preço da eletricidade.

Hoje, um quarto sem janela em Lisboa pode custar mais do que a propina anual de muitos cursos. É uma ironia particularmente portuguesa: entrar no ensino superior talvez seja mais fácil do que conseguir viver perto dele.

E nota-se no quotidiano. Nos estudantes que fingem normalidade enquanto fazem contas mentalmente ao saldo da conta bancária. Nos cafés das faculdades cheios até à noite porque “ficar mais um bocado” significa gastar menos aquecimento em casa. Nos grupos de amigos onde quase toda a gente trabalha ao mesmo tempo que estuda, como se descansar fosse um privilégio extracurricular.

Criou-se uma geração altamente qualificada na arte de sobreviver. Sabem procurar descontos, dividir despesas, partilhar contas de streaming, esticar bolsas de estudo até ao último cêntimo. Muitos acabarão o curso com competências impressionantes de gestão financeira adquiridas não por ambição empresarial, mas por necessidade.

E, apesar disso, continuam a pedir-lhes entusiasmo.

Pedem-lhes espírito académico, produtividade, médias altas, Erasmus, networking, projetos pessoais e saúde mental equilibrada. Tudo isto enquanto vivem frequentemente em quartos que parecem arrecadações caras com ligação Wi-Fi.

Talvez seja essa a maior contradição do país atual: nunca se exigiu tanto aos jovens e nunca lhes foi dado tão pouco espaço para começar a vida.

Antigamente dizia-se aos estudantes que o esforço compensava. Hoje diz-se algo mais vago: “logo se vê”.

E talvez seja isso que assusta mais um universitário em Portugal. Não é apenas a renda. É a sensação de estudar para um futuro que parece sempre adiado.


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