quarta-feira, 20 de maio de 2026

Não perturbes

 Há uma crueldade discreta em estar sentado numa cadeira, imóvel, aparentemente entregue ao grande desporto nacional de não fazer ponta de um corno, enquanto por dentro se passa uma espécie de congresso clandestino, com ideias a levantar a mão sem ordem, memórias a interromper assuntos que não lhes dizem respeito, frases que aparecem tortas mas com potencial, dúvidas a circular de um lado para o outro como funcionários das Finanças à procura de uma impressora que funcione, e tudo isto sem que haja, do lado de fora, qualquer sinal minimamente convincente de produtividade, porque uma pessoa que pensa não sua necessariamente, não levanta tijolos, não carrega sacos de cimento, não tem uma bata, não tem um crachá, não tem sequer a decência visual de estar a escrever num papel, o que ajudaria imenso, admito, porque o papel sempre dá aquele ar respeitável de quem sofre com método, mas às vezes nem papel há, nem caneta, nem secretária, nem espaço físico onde se possa dizer “pronto, agora vou isolar-me e transformar este caos numa coisa com princípio, meio e fim”, há apenas um corpo largado num sítio qualquer, talvez numa sala onde alguém vê televisão em volume de missa campal, talvez num café onde duas pessoas discutem o preço da dúzia de ovos como se estivessem a redigir a Constituição, talvez num quarto que não chega a ser abrigo porque também lá entram barulhos, mensagens, responsabilidades e pequenas merdas domésticas que parecem inofensivas mas têm a capacidade de assassinar uma ideia ainda em fase embrionária, e mesmo assim a cabeça trabalha, reorganiza, apaga, recupera, compara, rejeita, tenta outra vez, vai buscar uma imagem absurda, percebe que a imagem afinal é melhor do que a ideia original, abandona a ideia original com uma frieza quase criminosa e segue caminho, tudo isto enquanto quem passa olha e pensa que estamos apenas ali, parados, como um micro-ondas desligado, sem perceber que há um universo a tentar arrumar-se por dentro sem estantes suficientes, e talvez seja isso o mais difícil neste tipo de trabalho, não a escrita em si, mas a parte invisível antes dela, a fermentação, o tempo morto que afinal está vivo, o intervalo que afinal é oficina, a pausa que parece preguiça mas é só pensamento sem uniforme, até ao momento em que, finalmente, alguém nos vê calados e pergunta se se passa alguma coisa.

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